Especial : 2 anos de viagem.

Aquele velho ditado que diz “O tempo voa” é muito verdadeiro no nosso caso, sentimos extamente isso. Tudo passou muito rápido, parece que foi ontem que iniciamos a volta ao mundo de bicicleta.

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As últimas noites em nossa casa dormimos no chão com nossos equipamentos de camping, assim como cozinhamos com eles também, pois já havíamos vendido tudo que havia para ajudar na nossa viagem. Antes de fecharmos a porta, olhamos a sala totalmente vazia, mas com algo muito simbólico na parede. Havíamos desenhado o Mapa Mundi com um esboço de nosso roteiro, que planejamos durante 3 anos e que naquele momento iria sair da parede para a vida real. Deixamos a chave na imobiliária e fomos passar nossas últimas noites na casa do meu irmão.

No dia 30 de Julho de 2017 subimos na bicicleta, toda carregada, ansiosos, um pouco desengonçados ainda com o peso dela e pedalamos até o estacionamento do Hospital do Câncer de Jales, onde eu (Thiago) trabalhei por alguns anos, fiz muitas amizades e consegui juntar parte do dinheiro para custear a viagem neste local, que adorava tanto.

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Durante o caminho mil pensamentos passavam pela cabeça, “Que loucura eu estava fazendo!?”. No estacionamento encontramos amigos e parentes, de quem nos despedimos com o coração apertado e então subimos no nosso “cavalo de aço”, que batizamos carinhosamente de “Minhoca”, a bicicleta que nos levaria a tantos lugares inimagináveis por uma distância tão longa.

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2 anos e mais de 20 mil quilômetros pedalados depois, estou aqui escrevendo com a certeza de que fizemos a escolha certa. Foram tantos aprendizados sobre a vida, nosso mundo, culturas, natureza e nosso entendimento como casal, que fica difícil colocar em palavras as sensações que temos quando pensamos no que estamos vivendo.

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Sentimos muita saudades da família e dos amigos. É para nós, a parte mais difícil da viagem, mais dura que todas as subidas, frio, chuva, calor, tombos, brigas, diarreias, sede, fome, dores e medos que tivemos durante a viagem. Ao mesmo tempo que eles estão longe fisicamente, nos lembramos de todos diariamente e os levamos juntos na nossa garupa. São eles que nos ajudam a vencer as dificuldades e que nos inspiram, cada um com suas peculiaridades. Somos o conjunto de todos, em todos os momentos.

Decidimos destacar 25 aprendizados que tivemos em diversas ocasiões nessa longa e intensa viagem de bicicleta pelo mundo:

  • Há muito mais pessoas boas no mundo.

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Durante a viagem a maioria das noites passamos na casa ou propriedade de alguma família ou pessoa que nos acolheu. Alguém que confiou em nós sem nunca ter visto antes. Muitas vezes pessoas perguntaram se precisávamos de ajuda pelos caminhos, nos ofereceram água, comida e até dinheiro. Raras foram as situações que sentimos perigo ou desconforto. Algumas pessoas foram incríveis e inspiradoras para nós e aprendemos muito com elas também.

  • Os meios de comunicação em massa distorcem a realidade.

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Quantas vezes antes de sairmos pelo mundo afora havíamos lido ou visto notícias, principalmente na televisão, sobre os perigos de algumas regiões do mundo e de que como as pessoas que moram lá poderiam ser perigosas e então, finalmente quando chegamos neste lugares, a realidade que vivenciamos foi totalmente diferente. Um exemplo muito intenso para nós foi o Irã. A grande mídia mostra principalmente notícias ruins e depreciativas a respeito do país, mas lá vivenciamos um país seguro para viajar, cheio de pessoas muito boas e hospitaleiras, algo que não é divulgado praticamente. Em nenhum momento sentimos medo ou nos sentimos ameaçados naquele país.

  • O mais legal não é chegar, mas aproveitar o caminho.

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Normalmente dividimos nossa viagem em etapas, para nos organizarmos melhor. E então sabemos que queremos chegar em 2 ou 3 meses ao ponto B por exemplo, mas apesar de querermos muito conhecer o ponto B, o caminho que percorremos até lá é a parte mais divertida e cheia de aprendizamos para nós e muitas vezes é tudo tão intenso que depois de um tempo nem nos importamos se desviamos do ponto B e não vamos mais passar por ele. Não faz muito sentido fechar os olhos para tudo que esta no caminho e só se importar em atingir o objetivo.

  • Precisamos de muito menos coisas do que se imagina.

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Antes de inicarmos a viagem vendemos tudo que havia em casa e nos assustamos em descobrir quanta coisa inutil estava guardada ha anos e nem nos lembrávamos mais delas. Durante a viagem levamos somente o essencial e mesmo assim ainda deixamos algumas coisas pelos caminhos, pois acrescentavam peso a nossa bagagem e utilizávamos raramente. Nossa vida atualmente é bem minimalista comparada a maioria da população e somos felizes da maneira como estamos.

  • Muitas vezes desviar é o melhor caminho.

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Um grande rio dificilmente apresenta um trajeto retilínio, mas ele chega ao mar da mesma maneira, desviando de alguns obstáculos. Nossa viagem segue mais ou menos desta maneira, com um trajeto sinuoso, ou para passar por um lugar ou alguém que queremos visitar ou para desviarmos de uma cidade grande, que pode ser estressante, ou pegar uma estrada menor. Mas levamos isto para nossas atitudes diárias também, principalmente quando fora de nossa zona de conforto, em um lugar onde não conhecemos ninguém e o idioma é uma barreira, evitar o confronto nos livra de situações desagradáveis.

  • O choque cultural existe, não é fácil, e ensina muito sobre nós mesmos.

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O momento que mais sentimos isso foi quando entramos na Ásia Central. Nós escolhemos estar ali, então não faz sentido brigar com as pessoas ou situações devido a diferenças culturais que podem ser estressantes para nós. A partir do Irã e nos “Estãos” existe um assédio aos turista, que estando numa bicicleta totalmente expostos é maior do que com viajantes em turismo tradicional. Muitas vezes nos sentimos invadidos e com perda da privacidade nestes países e tivemos que trabalhar isso muito em nossas cabeças, realmente é muito difícil se acostumar, mas estando ali, temos que aceitar.

  • Confie nos seus instintos.

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A expressão norte americana “Trust your guts” (confie em suas tripas) exemplifica muito bem este sentimento. Várias vezes este instinto desenvolvido por centenas de anos e que pareceu ter sido apurado com a nossa viagem, nos livrou de situações desagradáveis. Se sentimos aquele “frio na barriga” em algum lugar ou não gostamos dos “olhares” de alguma pessoa, simplesmente saímos de onde estamos, mesmo cansados, e buscamos outro lugar para passarmos a noite por exemplo.

  • Um sorriso abre portas, literalmente.

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Tem que ser um sorriso sincero. Manter o bom humor e atitudes positivas influenciam as pessoas ao redor e creio que elas se sentem mais a vontade na nossa presença também, facilitando muito o contato e possibilidade de nos ajudarem. Quando não estamos em um bom dia por exemplo, preferímos procurar um lugar bem escondido para acamparmos.

  • Um banho quente e uma boa noite de sono ajudam a  resolver muitos problemas.

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Uma longa viagem, seja qual o modal de transporte escolhido, vai apresentar diversos problemas para serem resolvidos. As vezes durante um único dia uma cascata de eventos ruins pode acontecer e deixar para pensar sobre o assunto após um banho quente e uma noite bem dormida facilita muito o “lidar” com a situação no dia seguinte. E quando não for possível o banho quente, poder ser aquele banho de mar, rio, canequinha e procuramos um lugar bem tranquilo, se possível, para uma noite calma.

  • Se precisa de ajuda, peça. Muitas pessoas gostam de ajudar, você poderá se surpreender.

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No início muitas vezes existe um receio em pedir ajudar ou incomodar alguém fazendo isso, mas a partir do momento que deixamos a vergonha de lado e fomos pedir ajuda a alguém, muitas vezes fomos surpreendidos pela quantidade de pessoas que se desdobraram para nos ajudar, isto em todos os tipos diversos de países e culturas. Há muitas pessoas que gostam de ajudar.

  • Paciência e persistência vencem muitos obstáculos.

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No sul da Armênia, o relevo montanhoso e a altimetria acumulado em poucos quilômetros foram desafiadores para nós. A melhor saída que encontramos foi reduzir nossas metas e com paciência empurrar nossa bicicleta por um longo tempo até que no final do dia houvéssemos avançado para mais próximos do final da subida. Paciência e perseverança ajudam a vencer os mais duros obstáculos.

  • Confie nas pessoas.

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Quantas pessoas abriram as portas de suas casas para nós sem nos conhecerem, não fazia sentido não fazermos o contrário. Confiamos em muitas pessoas que nos ofereceram um lugar para descansarmos ou qualquer outra ajuda. Claro que seguimos nossos instintos, mas confiar nos outros facilita muito a vida.

  • É difícil se despedir quase todos os dias.

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Foi sofrido dizer “tchau” para nossos familiares e amigos antes de partirmos, mas durante a viagem isso voltou a acontecer inúmeras outras vezes com pessoas incríveis que conhecemos e com quem gostaríamos de passar mais tempo, mas não tem jeito a viagem tem que seguir e ainda não nos acostumamos com as despedidas.

  • Quer conhecer alguém muito bem? Faça uma longa viagem com a pessoa.

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Nosso relacionamente como casal teve um upgrade para outro nível com esta viagem. Há muitos momentos difíceis, alegres, duros, engraçados, sinistros… Ou seja, é tudo muito intenso e nestas horas não há auto controle que segure a onda de tudo e somos totalmente autênticos. A intimidade é total, afinal estamos 24 horas por dia juntos, todos os dias e na mesma bicicleta ainda por cima. Atualmente nos conhecemos muito bem, já sabemos as reações um do outro as mais diversas situações e isto ajudou muito na nossa vida a dois.

  • Se o dia de hoje está bom, aproveite ao máximo, o próximo pode ser miseravelmente péssimo.

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Tivemos dias lindos, sol, paisagem maravilhosa, água a vontade, acampamento silencioso em lugar paradisíco, seguido por uma mudança abrupta de clima no outro dia, com chuvas, vento contra, estrada ruim e acampamento em lugar barulhento e sujo. Tirando as vezes que ficamos parados por mais tempo em um determinado lugar, nossos dias são muito diferentes um do outro e mesmo em um único dia as coisas podem mudar totalmente. Aproveitar os momentos bons é o segredo para aguentar os momentos miseráveis entre eles.

  • Não durma brigado(a) com quem você ama.

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Muitas vezes estamos na nossa barraquinha de camping ou na casa de alguém e quando temos uma briga durante o dia, temos que resolvê-la até a hora de dormir, afinal sempre passamos a noite muito perto um do outro e ficar brigado só vai piorar nossa noite de sono, que é muito importante para nós. Por mais que estejamos “putos” um com o outro, antes de dormirmos conversamos e fazemos as pazes. Este foi outro ensinamento bom que tivemos por dormirmos muitas vezes acampados.

  • Pensamentos atraem.

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Não sabemos qual a explicação por trás disso, se exotérica ou lógica, porém os pensamentos influenciam na cascata de acontecimentos do nosso dia na estrada. Algumas vezes quando percebemos que estamos rabugentos ou com atitudes pouco amistosas, paramos um pouco, comemos, descansamos e tentamos mudar nossos pensamentos para algo positivo, normalmente isso facilita enfrentar um dia difícil e algumas vezes interrompe o “efeito dominó” de acontecimentos ruins.

  • Viajar com orçamento apertado faz você dar valor as pequenas coisas.

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Tentamos manter nosso orçamento o mais baixo possível, dentro um tolerável pela nossa sanidade mental. Se gastarmos muito, nosso dinheiro vai acabar antes do programado, então não tem muito jeito, economizamos. Este economizar influencia em várias coisas, principalmente nos gastos com hospedagem e pequenos luxos. Com isso, muitas vezes tomamos banho de rio, toalinha ou não tomamos banho, dormimos em nossa barraca de camping em um chão duro com um clima as vezes hostil fora dos nossos sacos de dormir e poucas vezes podemos comer algo mais “sofisticado”. Isso faz uma diferença muito grande no valor que damos as pequenas coisas. Um banho quente, um banheiro limpo, uma cama confortável, um lugar seguro para dormir, uma bebida gelada no final de um dia quente, sentar a mesa com pessoas divertidas e darmos boas risadas, um prato cheio de comidas saudáveis, uma fruta madura geladinha e roupas lavadas e cheirosas por exemplo. Coisas simples que fazem tanta diferença.

  • Muitas vezes os caminhos mais difíceis levam aos lugares mais bonitos.

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As regiões montanhosas e lugares mais inóspitos pelos quais passamos são uma prova disto. Na região da patagônia Argentina depois de duros trechos de vento e trilhas ruins chegamos a beira de lagos lindos ornamentados com montanhas nevadas ao redor, paisagens de “National Geographic”. Trechos montanhosos na Bósnia, Marrocos, Armênia e Suiça nos presentearam com paisagens de “cair o queixo”, mas quando fomos dormir achamos que iriam cair nossas pernas do tanto que doiam. Aquele cantinho ideal e tranquilo para acampar é normalmente difícil de chegar.

  • A ideia de que temos controle das situações, em 99% das vezes é apenas uma ideia.

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Roteiro do dia pronto, tudo planejado e…. 2 horas depois o tempo muda, o pneu explode e vem uma diarréia. Sim, esta cadeia de acontecimentos ocorre em uma longa cicloviagem e neste momento, tudo aquilo que parecia totalmente sob controle, esta um caos e o melhor é deixar o fluxo te guiar e relaxar. Principalmente o clima, muitas vezes alterou totalmente nossa programação.

  • Manter-se seco no inverno rigoroso é essencial.

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Enfrentamos uma sequência de 5 meses de temperaturas frias desde o Outono na Bulgária até o início da primavera na Armênia. O que mais influenciava na manutenção da nossa temperatura corpórea era nos mantermos secos. Como dois seres tropicais de terras Brasileiras, não estávamos acostumados com temperaturas negativas e neve e esta viagem nos ensinou muitas coisas, às duras penas algumas vezes. Durante a viagem trocamos nossas capas de chuvas por outras de material respirável, investimos em equipamentos impermeáveis como meias e boots e deixamos sempre roupas secas no topo dos alforges para vestirmos o mais rápido possível quando parávamos.

  • As melhores coisas não são coisas.

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Saudades é uma palavra da língua portuguesa que não existe em nenhum outro idioma e sentimos ela todos os dias. Algumas vezes sentimos falta de ter nossa casa, uma cama quentinha, um fogão de verdade ou um sofá, hehehe… Mas sempre sentimos falta do que gostamos mais e isto significa pessoas e situações como: abraçar nossos irmãos, país, mães, avós e amigos; conversar uma tarde inteira pessoalmente com nossos amigos, dormir sem se preocupar com alguma pessoa ou bicho se aproximando ou acordar sem se preocupar em onde chegar.

O que mais nos lembramos e mais nos marca durante viagem não são os lugares por onde passamos mas sim as pessoas que conhecemos e toda esta troca cultural.

  • Não resolva nada com fome.

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Se tem uma coisa que nos deixa mal humorados, ainda mais com a fome descomunal de ciclo viajantes que sentimos, é a privação de comida. Aquele pequeno problema ou dificuldade podem se transformar em uma bomba atômica das desavenças se estamos com fome. Portante, quando percebemos que estamos com fome, deixamos para resolver qualquer coisa só depois de saciá-la ou acalmá-la um pouco pelo menos e tudo fica mais fácil depois.

  • As vezes é bom não fazer nada.

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Depois de vários dias de pedal e acampamentos selvagens precisamos de um momento de descanso e não nos sentimos nem um pouco culpados se ficamos um dia inteiro “jogados” sem fazer nada. O ócio é bom nestas situações e ajuda a colocarmos nossas ideias em ordem depois de dias intensos.

  • Não importa a raça, cor da pele, religião, grana ou cultura, essencialmente a maioria das pessoas temem e querem as mesmas coisas na vida.

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Passamos por muitos lugares diferentes, com pessoas de características fisicas diversas, culturas distintas e religiões variadas. A viagem de bicicleta te deixa mais exposto a abordagens e por isto, algumas vezes, íamos parar na casa destas pessoas, com a chance de conhecê-las melhor e ter uma imersão cultural. Observando de perto estas pessoas e conversando de maneira aberta e autêntica pudemos perceber que os anseios e medos de todas elas são muito parecidos, senão completamente iguais, independentemente de onde elas são. Todos tem medo de ficar doentes, todos querem ser amados, querem se sentir seguros, receber carinho e atenção, todos gostam de ter amigos, motivos para sorrir e sonhar. De tudo isso, o “sonhar” é algo muito humano e universal e talvez isso nos ajuda a nos conectarmos com tantas pessoas, pois estamos realizando um sonho.

3 comentários sobre “Especial : 2 anos de viagem.

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