Turquia de bicicleta – Parte 3: Da Capadócia ao Mar Negro e sentido leste até a Geórgia. (For other languages, please use the browser or internet translator)

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Neste post vamos descrever nosso trecho viajando de bicicleta entra a cidade de Göreme (Capadócia) até chegarmos a fronteira com a Geórgia, seguindo primeiro sentido norte até o Mar Negro e depois para leste. (Links para o Trecho 1 e Trecho 2)

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Percorremos cerca de 950 km neste trajeto. A porção central da Turquia estava fria e com períodos de nevascas durante o inverno e nossa primeira opção foi seguir rumo norte, fazendo o trajeto mais curto possível até a região da costa do Mar Negro, onde as temperaturas estavam mais amenas.

De Göreme, nos despedimos da bela região da Capadócia e do amigo Isra e partimos em mais uma manhã fria mas sem neve ou chuva. Ao redor belas montanhas nevadas. Ainda teríamos longos trechos montanhosos pela frente até chegarmos ao Mar Negro. A corrente da roda traseira nós trocamos a cada 1000 km e o cassete traseiro normalmente a cada 5000 km. Já com a corrente do “timming”, que é mais grossa, somos um pouco mais desleixados e em uma das subidas, já com 10 mil quilômetros puxando uma tandem carregada, ela começou a dar sinais de que estava na hora de ser substituída. Ela escapou do extensor de corrente e entortou um dos elos. Sempre carregamos um pedaço de corrente, então alí mesmo na estrada já consertei. Assim que possível iria comprar uma corrente nova.

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Adoramos acampar ao ar livre, em meio a natureza e com um cenário incrível ao redor, mas na maioria das vezes não é isso que acontece, principalmente em dias de clima não favorável. Nos dias que se sucederam, ruma a cidade de Sorgun passamos por dias de chuva, frio e vento e buscamos por lugares cobertos para colocarmos nossa barraca. Não somos fãs de estruturas abandonadas, mas as vezes são boas opções. Nestes dias acampamos em um restaurante abandonado e um posto de combustível em construção. Como nossa barraca não é auto portante, temos que usar a própria estrutura ao redor e alguns pesos para mantê-la armada, mas sempre damos um jeito quando o chão é sólido.

Chegamos então a cidade de Sorgun e fomos recebidos pelo simpático casal Mustafa e Kubra (CouchSurfing), que estavam com seu bebêzinho de 3 meses. Eles são pessoas adoráveis, professores de Inglês, adoram viajar e receber viajantes. Além da casa quentinha e aconchegante, nos apresentaram seus amigos, nos levaram para jantar e ainda prepararam sobremesa antes de dormir. No dia seguinte, antes de nos despedirmos, fomos até a escola onde trabalham conversar com os alunos. Foi uma experiência muito bacana.

Crianças são divertidas por todos os países pelos quais passamos (adolescentes já são outra história), e quando elas nos vêem na nossa bicicleta elas endoidam, hehehe. Na Turquia tivemos a oportunidade de conversar com crianças em escolas públicas por duas vezes e adoramos. As escolas públicas turcas são grandes, limpas, organizadas e com ensino de qualidade. Os alunos são sempre muito educados, curiosos e divertidos conosco. Sentimos uma relação muito respeitosa dos jovens alunos com seus professores também.
Quando entrávamos nas salas de aula, todos os alunos se levantavam para nos receber e só sentavam novamente com o pedido do professor. Contamos sobre nossa viagem e respondemos as perguntas das crianças em Sorgun. Mais uma vez saímos com a energia recarregada falando com esta juventude cheia de vida e brilho nos olhos.

Quando passamos pela região de Alaca e Çorum, a previsão era de nevasca por alguns dias e seria bom ficarmos em um lugar mais abrigado. Tentamos hospedagens solidárias como Warmshowers e CouchSurfing sem sucesso. Nos lembramos então da dica dos sábios gurus Olinto e Rafa (www.olinto.com.br), de quando eles viajaram pela Turquia e se hospedaram algumas vezes na “Casa dos Professores”, chamada de “Oğretmenevi” em turco. Trata-se de uma hospedagem com preços algumas vezes entre um hotel e um albergue. Decidimos experimentar então.
Os preços variam muito dependendo da cidade e da “chiqueza” do lugar. Ficamos em um simples na cidade de Alaca, por 30 TL por pessoa (cerca de 5 USD) e em um mais sofisticado em Çorum, por 60 TL por pessoa (cerca de 10 USD). De qualquer maneira saem mais em conta que os hoteis ao redor e são limpos, seguros e organizados. Valeu a dica, escapamos das nevascas.

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Finalmente as nevascas passaram e sol voltou. Partimos então da cidade de Çorum sentido Merzifon. Conforme começamos a chegar mais perto do Mar Negro, fugindo do frio da porção central e montanhosa da Turquia, as temperaturas começaram a ficar mais positivas. Neste dia, começamos a pedalar com -1C, mas com céu aberto e sol bem forte. Incrível como isto altera nossa sensação térmica e humor. Depois do meio dia já estava uns 3 graus, mas era como se estivesse uns 10 pra nós, todos felizes pedalando com um céu aberto e sol forte.

Na cidade de Merzifon tivemos a sorte de conhecer muitas pessoas especiais de uma vez, primeiro fomos recebidos pelo hospitaleiro Ömür, que contactamos através do @warmshowers_org , depois fomos apresentados aos seus amigos e colegas de trabalho Didem e Murat. Na empresa onde trabalham, fomos presentados com um super almoço. Depois ainda fizeram um rápido city tour para nos mostrar um pouco da cidade e a noite jantamos na casa do Murat e dormimos no apartamento da Didem, que deixou um bilhetinho para nós no outro dia e uma lembrança. O Ömür na manhã seguinte nos acompanhou por 10 quilômetros na estrada antes de se despedir de nós. Adoramos tudo.

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No dia seguinte chegamos até Uçhanlar. Nem sempre há um lugar lindo para acampar, mas este foi tranquilo e seguro, ao lado um posto de gasolina.

Ahhh, o mar  😍. Finalmente encontramos o Mar Negro novamente. A última vez foi na cidade de Burgas, Bulgária, ha meses antes. Nesta área o inverno turco é um pouco mais ameno e as temperaturas negativas são mais improváveis, em poucas semanas começava a primavera e começamos a sofrer menos com o frio.
Nosso encontro com o Mar Negro foi na cidade de Samsun, depois de uma deliciosa descida de mais de 20 quilômetros rumo a costa, em um belo dia ensolarado. A partir deste momento miramos nosso GPS para a Georgia e aproveitamos a altimetria mais plana para chegarmos dentro do prazo na fronteira. Ficamos bastante tempo na Turquia e nosso período de 90 dias estava acabando.

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Sol forte, temperaturas acima dos 10C durante o dia, nem acreditávamos. Ficamos 2 noites em Samsun, acampados. Aproveitamos para lavar nossas roupas, secá-las bem, comprar comidas e relaxar. O litoral é muito urbanizado e movimentado na costa do Mar Negro e não é tão fácil encontrar lugares tranquilos para acampar selvagem. Em Samsun ficamos no Camping municipal, que estava fechado, mas quando aparecemos por lá eles nos deixaram ficar. 😊

A maioria dos campings municipais na região do Mar Negro estão fechados no inverno e acampar selvagem não é uma opção muito agradável nesta região da Turquia, que é muito urbanizada e com movimento intenso de veículos.
Por sorte quando passamos por alguns destes campings, encontramos alguém por alí e comversando um pouco nos deixam ficar.
Na região de Terme, completamos 16000 km pedalados e encontramos um camping ficava em um parque à beira do Mar Negro. Um lugar muito bonito. Passamos a noite com silêncio e tranquilidade acampando somente nós. O guarda do local nos contou que durante a temporada, este camping recebe centenas de pessoas por dia.

Normalmente a maioria dos cicloviajantes que encontramos acordam cedo e rapidamente desmontam tudo e caem na estrada. Nosso ritmos é mais “slow motion” pela manhã. Acordamos com o sol aquecendo a barraca (entre 7:30 e 8:00 h) e aí enrolamos um pouco para sair dos sacos de dormir, principalmente no inverno, desmontamos nosso quarto, arrumamos os alforges, fazemos café da manhã, “toalete”, guardamos os equipamentos de camping, colocamos tudo na “Minhoca” (nossa bike) e só então depois de cerca de 1 hora e meia a 2 horas depois de levantarmos, saímos, ou seja, nosso dia de pedal começa entre 10 e 11 horas da manhã.

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Continuando pela costa do Mar Negro, passamos pela cidade de Fatsa, que chamou nossa atenção pelos jardins floridos e bem cuidados a beira mar. Ficamos uma noite na “Casa do Professor” (Oğretmenevi) da cidade, pois o clima estava muito chuvoso para acampar e não conseguimos nenhuma hospedagem solidária na região.

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Pegamos muitos tuneis em nossa viagem e nunca gostamos muito deles. Pegamos túneis mais escuros, perigosos e longos que os que atravessamos na Turquia, mas nesta travessia pela rodovia do Mar Negro foi quando pegamos a maior sequência de túneis seguidamente e muitos deles com mais de 2 ou 3 quilômetros. Felizmente são bem iluminados e limpos e infelizmente não apresentam acostamento e muitos motoristas passam tirando finas, mas sabíamos que fazia parte da aventura.

Na cidade de Ordu na Turquia fomos surpreendidos pela existência de um restaurante, do qual um dos donos que é fã de bicicleta (Erim), que faz parte da comunidade warmshowers, ajuda a os ciclo viajantes de passagem por alí a saciarem sua fome.
O lugar é muito bacana e tem uma área onde ha fotos de vários viajantes que já passaram por lá. O Erim trabalha muito e não pode receber os ciclo viajantes em sua casa, mas disponibiliza seu tempo e boa comida aos que passam por ali e fazem uma visita. Ficamos cerca de 2 horas ali papeando bastante com ele, descansando, tomando um chá e comendo. De lá, seguimos para nossos anfitriões na mesma cidade.

Fomos hospedados pelo talentoso e alegre casal Aişe e Serdal. Eles nos encontraram no final de tarde, depois de voltarem do trabalho e cheios de ânimo para nos receberem. O Serdal toca Baalama e canta muito bem e a Aişe canta e cozinha maravilhosamente. Foi um final de tarde cheio de música e comilança, não preciso nem dizer que adoramos. A hospitalidade do povo turco sempre nos surpreendendo.
Eles nos contaram que estão planejando uma longa viagem de bicicleta para o futuro. Desejamos a eles que encontrem pessoas boas como eles são, sempre.

No dia seguinte antes de partirmos, vimos pelo GPS que havia uma estradinha paralela e uma praia ao lado de um longo tunel e fomos dar uma pesquisada. Chegando lá (Uluburun Plaji) o único acesso a praia era por uma propriedade privada que alugava um espaço para camping. O litoral do Mar Negro turco tem praias predominantemente de pedras, principalmente quanto mais próximo a Georgia. As pedras normalmente são arredondadas e não machucam os pés. Algumas prainhas são de difícil acesso, mas com um belo por do sol. O lugar era bem bonito e decidimos ficar, mas pedimos para ficar em uma casinha que havia ali, assim não precisariamos armar nossa barraca. O proprietário concordou.
Passamos o final de tarde na praia e depois voltamos, tomamos um banho quente e nos escondemos na nossa casinha.
Mas houve um incoveniente. Como não é temporada, os donos não ficam por lá e apesar de ser uma propriedade privada, as vezes entravam alguns curiosos a noite para ver a praia, mas nada que o frio não interrompesse lá pelas onze da noite e então dormimos tranquilos.

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No outro dia seguimos pela rodovia costeira e avistamos uma pequenina praia onde fomos acampar, próximo ao vilarejo de Çavuslu. Chegamos a tarde nesta pequena praia e perguntamos para um rapaz se poderíamos acampar por ali, ele respondeu que sim. No final da tarde passou uma senhora e perguntamos a mesma coisa e ela também respondeu que sim, mas pediu que não fizéssemos fogueira. Na frente do lugar onde acampamos havia um prédio, que ainda não sabíamos que iríamos visitar na manhã seguinte.

“Venham tomar café conosco”. Foi com este convite que acordamos no nosso camping selvagem na manhã seguinte.
No outro dia de manhã enquanto terminávamos de guardar nossas coisas, o mesmo rapaz apareceu de novo e veio nos convidar para tomarmos café com a família dele. Foi algo tão espontâneo e inesperado, e respondemos que sim.
Ele vivia neste prédio com seus pais e seu irmão. Uma família muito simpática e curiosa com nossa viagem. Mesmo não falando inglês, com a ajuda do google tradutor e de um pouco de turco que fomos aprendendo, conseguimos conversar bastante. A mesa de café era farta e cheia de comidas gostosas. Mais uma vez fomos surpreendidos pela hospitalidade do povo turco. Uma família feliz e bondosa, que nos fez mais felizes ainda neste dia.

A nossa parada seguinte foi na cidade de Yomra e  através do CouchSurfing , fomos hospedados pela Yarencan. Ela morava junto com sua amiga e colega de faculdade. Ambas cursavam psicologia.
Elas eram muito alto astral, falantes e hospitaleiras. Ficamos 2 noites com elas e como uma forma de agradecer, a Flavinha preparou coxinhas para elas na outro dia e elas adoraram. Nosso tempo com elas foi divertido, com muitas conversas, risadas, comidas, leitura de café, jogo de gamão, musicas e “dança do pescocinho”.

Depois de um longo dia de pedal, chegamos a cidade costeira de Rize. Lá, sabíamos que um simpático turco recebia ciclo-viajantes em seu bar (Warmshowers). Foi então que conhecemos o hospitaleiro Mustafa. Ele foi competidor de ciclismo e ganhou muitos prêmios, a bicicleta e as medalhas estão na parede do bar. Ele ainda pedalava bastante, mas não fazia ciclo viagens pois a rotina intensa de trabalho não permitia, mas uma forma de viajar foi receber ciclo viajantes no piso superior de seu bar, onde havia um cantinho para dormir e banheiro. Durante o dia o bar fica animado, com muitas pessoas bebendo chá e jogando cartas ou okay (um jogo muito popular na Turquia), mas a noite ele fecha o bar e tivemos uma noite tranquila. Na manhã seguinte, o amistoso Mustafa nos presenteou com um café da manhã. Ele diz que já recebeu centenas de ciclo-viajantes que passam por alí, pois é uma das principais rotas para a Asia, sentido Georgia. Deixamos um recado para ele no mural que há na parede do bar e partimos com um abraço apertado e Güle güle.

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De Riz seguimos para a cidade de Hopa, já bem próxima a fronteira com a Geórgia. Passamos lá nossa última noite na Turquia.
Ficamos quase 90 dias em território turco e tivemos experiências maravilhosas neste país, que vão deixar saudades. Um país que apresenta altas montanhas, belos lagos, praias bonitas, comida deliciosa e o ponto mais forte de todos, um povo muito muuuuito muuuuuuuito hospitaleiro, que fez nossa viagem inesquecível neste país. Na nossa última noite na Turquia, na cidade de Hopa, fomos hospedados pelo Caner, que nos levou para comermos Pide, um prato típico turco, e ainda conversamos bastante sobre vários assuntos. Tivemos a felicidade da hospitalidade turca no nosso último dia neste país que consideramos um ótimo destino para cicloviajar.

Güle güle…

Trecho 2 <-

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