Bosnia. Viajando de bicicleta por este país tão rico em história, paisagens e pessoas. (For other languages, please use the website or browser translator).

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Entramos na Bósnia e Herzegovina vindos da Croácia e logo depois da fronteira já começamos a notar algumas diferenças. O dinheiro mudou novamente e no primeiro vilarejo depois da fronteira já conseguimos fazer o câmbio para os Marcos Bósnios (KM), outra diferença foi a religiosa, depois de tanto tempo pedalando pela europa, entramos novamente em um país com grande parte da população islâmica. A Bósnia também é mais pobre economicamente que seus vizinhos e ainda apresenta muitas construções destruídas por uma guerra que durou muitos anos e esta muito viva na memória das pessoas.

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Atravessamos a Bósnia de Oeste a Leste praticamente. Nestes cerca de 530 km, conhecemos as regiões de população muçulmana, católica e cristã ortodoxa, cruzamos um parque nacional, subimos montanhas, vimos placas de minas terrestres, sentimos frio e calor, acampamos muito de maneira selvagem e conhecemos muitas pessoas incríveis. Adoramos a Bósnia.

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Cruzamos a fronteira próxima a cidade de Bihac e seguimos procurando um lugar para acampar. Conhecemos a hospitalidade do povo Bósnio logo depois de entrarmos no país. Paramos ao lado de um rio bonito e fomos a um restaurante perguntar se poderíamos acampar alí por perto. Foi então que conhecemos o proprietário, o sr Yusuf. Ele foi muito simpático e logo ofereceu uma área ao lado para acamparmos e nos deixou usar o banheiro, além do café muito tradicional que nos ofereceu. O Yusuf não falava nada em inglês e nós menos ainda em Eslavo, mas mesmo assim batemos altos papos, hehehehe.

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No nosso segundo dia na Bósnia vimos uma placa na estrada falando de um parque nacional. Olhamos no mapa e vimos que ficava um pouco no rumo de Sarajevo e decidimos visitar. O lugar é bem bonito e foi feito para preservar o rio Una, que dá nome ao parque. Percorrendo as estradas que margeiam o parque, acampamos em uma área de pescaria. O lugar era tranquilo, com mesas e as margens do rio Una, com águas cristalinas. Nos banhamos, jogamos baralho e esperamos anoitecer para montarmos acampamento sem chamar a atenção. A noite ficou bem frio e ninguém apareceu. Na manhã seguinte assim que acordamos já desarmamos acampamento para não criar problemas e logo depois apareceu um pescador e um guarda-parques, mas como não haviam mais rastros da nossa barraca, ninguém falou nada.

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Como gostamos deste pequeno parque, decidimos aproveitar melhor o lugar e então pedalamos pouco no outro dia e paramos no pequeno vilarejo de Martin Brod. Esta pequenina cidade de cerca de 300 habitantes apenas, abriga belas cachoeiras em uma das entradas no Parque Nacional Una. Há um monastério ortodoxo Servio que foi destruido e reconstruido diversas vezes devido as muitas guerras que passaram por aqui. Nesta noite acampamos em um lugar oficial do parque e pagamos um preço barato em relação aos campings tradicionais.

No dia seguinte enfrentamos longas subidas para sair do parque e ir sentido Drvar, uma cidade onde procuraríamos um supermercado e depois algum lugar para acamparmos.

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Neste dia tivemos um contato mais forte com as consequências de uma guerra. Os balkans são um dos lugares no mundo em que ha ainda muitas minas terrestres espalhadas e a Bósnia e Herzegovina tem centenas delas ainda ativas espalhadas por todo o território. Há mapas de áreas suspeitas e estas normalmente são sinalizadas por estas placas. Este é um problema para acampar selvagem, temos que prestar bastante atenção e sempre perguntar a moradores locais onde podemos acampar, evitando assim explodirmos por aqui. Ainda ocorrem cerca de 20 acidentes com minas terrestres por ano aqui. Os locais onde elas são mais presentes são nos pontos altos de montanhas.

Depois de uma longa subida, paramos para tirar uma foto da paisagem antes de iniciarmos nossa descida para a cidade de Drvar, foi então que aconteceu mais um destes encontros incríveis que temos durante nossa viagem.  Passou um carro, a passageira abriu a janela e gritou em português: “Vocês são do Brasil!? Não acredito..!!!”. O carro parou e assim conhecemos esta incrível família, formada pela brasileira Maira, o servio-bósnio Petar (o primeiro Bósnio a subir o Everest) e a pequenina Sofia. Eles nos comvidaram para a casa deles em um bairro chamado Zaglavica, uma linda região rural nas montanhas. Nos acolheram por alguns dias, nos apresentaram a familiares e amigos e aprendemos muitas coisas com estas pessoas maravilhosas que cruzaram nosso caminho.

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Logo antes de chegarmos a casa deles nosso pneu dianteiro rasgou a lateral e explodiu. A nossa salvação veio pelas mãos do tio do nosso anfitrião bósnio, o Petar. Esse senhor muito simpático e engraçado, consertou nosso pneu a moda antiga em sua borracharia. O melhor de tudo foi o tanto de Rakija ( tipo uma cachaça da Bósnia ) que bebemos durante o processo todo, hehehehe .

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A Bósnia apresenta 3 grupos etnico-religiosos principais, que hoje vivem em tempos de paz juntos. Os Bosniák que são muçulmanos, os croatas que são católicos e os sérvios que são cristãos ortodoxos. A foto é de um padre ortodoxo na cidade de Drvar, hoje uma cidade quase que totalmente de origem sérvio/ortodoxa, onde participamos do batizado de um dos sobrinhos do Petar.

Antes de seguirmos sentido Sarajevo, o Petar e a Maira nos deram várias dicas do percurso e ainda nos convidaram para um coquetel da Embaixada do Brasil, para o qual eles iriam. Fizemos alguns cálculos e teríamos 5 dias para chegar pedalando por lá. O roteiro que eles nos indicaram não foi nada fácil, mas foi muito bonito e por estradas bem tranquilas.

As paisagens do interior da Bósnia ajudam a superar as duras subidas em meio a esta região tão montanhosa. Sempre que podemos tentamos usar as vias menores e rurais e neste dia as condições desta estrada de terra estava ótima.

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Chegamos a cidade de Glamoč, paramos em um posto de gasolina para perguntar onde poderíamos acampar por ali e um grupo de 3 rapazes gentilmente nos levou a um tranquilo parque na cidade. No local havia água potável e mesas de picnic. Passamos uma noite tranquila entre as árvores.

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Pelos caminhos vimos muitas construções abandonadas desde a época da guerra, espalhadas por todo o país. Muitas familias sairam ou morreram naquela epoca e desde então as casas ficaram sem ninguém.

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Pelo interior do país enfrentamos longas subidas com pelas paisagens. Depois de Glamoc paramos na pequena cidade de Šuića e em um pequeno mercado fui perguntar sobre um lugar para acampar. Neste momento conhecemos o Tony, que nos levou até a igreja católica local e nos informou que poderíamos acampar ali. Logo depois chegou Ismiliana, uma simpática senhora que nos recepcionou na igreja também e com uma super hospitalidade nos deu boas vindas e ainda nos presenteou com biscoitos, suco e queijo. Além do sossego de acampar nesta igreja, ainda pudemos utilizar o banheiro e fomos carinhosamente recebidos por estas pessoas.

Estavamos fazendo uma média de 70 a 80km por dia, que estava nos deixando bem cansados devido ao relevo muito montanhoso, mas não tínhamos muita saída pois queríamos chegar em Sarajevo até o dia 7 de Setembro (independencia do Brasil) para participarmos do coquetel da embaixada. Depois de tantas subidas começamos a pegar algumas descidas que ajudaram muito nossas pernas cansadas.

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Chegamos cansados no final do dia, já anoitecendo, próxima a cidade de Jablanica, Bósnia e Herzegovina. Paramos no vilarejo de Baćina e entre uma casa e uma pequeno rio havia uma área bem boa para acampar. Lá conhecemos o dono da casa, o simpático Sr. Hussein, que chegou se apresentando “Olá, sou o Hussein, mas não o Saddam Hussein!”. Bem humorado, nos ofereceu uma dose de Rakija (cachaça da Bósnia) para aquecer a noite fria e também água para bebermos. Passamos uma noite muito tranquila neste local. Estes pequenos vilarejos ficam bem silenciosos durante a noite.

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Saímos da região mais montanhosa e rural e começamos a enfrentar mais tráfego nas estradas, cada vez mais próximos de Sarajevo. O grande movimento nas estradas nos deixou mais cansados que subir montanhas. Antes de chegar a Sarajevo fizemos uma última parada para acampar em um posto de gasolina, cerca apenas de 30 km da capital da Bosnia and Herzegovina. Paramos e fomos recebidos de forma muito amigável pela equipe que trabalha lá e é claro, nos deixaram passar uma noite em um gramado perfeito para colocar a barraca.

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Entrar nas grandes cidades é normalmente bem estressante e Sarajevo não foi diferente. Não havendo outras vias em alguns trecho, tivemos que pegar as vias maiores, sem acostamento e com muito movimento, mas no final tudo da certo.

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Chegamos em Sarajevo no dia 7 de Setembro pela manhã, com a ideia de chegar a tempo para o cocktail de comemoração. Deu tempo, paramos a bike na garagem do Hotel Evropa (local da festividade), trocamos de roupa lá mesmo rapidinho e conseguimos entrar para comemorar com a comunidade brasileira na Bósnia. Conhecemos outros brasileiros muito bacanas por lá, reencontramos o casal de amigos Maira e Petar e conhecemos o embaixador Manoel Gomes Pereira e todo pessoal da embaixada, todos muito hospitaleiros e animados.

A capital da Bósnia e Herzegovina nos encantou, ficamos em um Hostel. Há uma mistura de oriente e ocidente, boa culinária, lugares interessantes para explorar. Visitamos feiras, restaurantes tradicionais, montanhas ao redor e ainda fizemos um free walking tour que nos ensinou muito sobre a história desta cidade cativante.

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Em Sarajevo fomos fazer a manutenção na bike e estes dois “baixinhos” nos ajudaram a encontrar as lojas certas. Slobodan e Tarek, muito obrigado pela ajuda. O Slobodan depois ainda nos levou para conhecermos outros pontos turísticos de Saraievo e nos explicou mais sobre a história do país, muito hospitaleiro.

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Este é um dos pratos típicos da região dos Balkans e uma das especialidades em Saraievo, o Ćevapčići. Uma delicia.

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Saindo de Sarajevo sentido Serbia tivemos contato com mais uma das peculiaridades deste país, entramos em um estado chamado de república dentro um país. A República Serpska, que faz parte da Bósnia.

Na Bósnia passamos pelos túneis mais sinistros de nossa viagem até agora, alguns deles com quase 1 km de extensão e sem iluminação interna alguma. Era como desbravar uma caverna. Em um único dia atravessamos uma sequência de mais de 20 tuneis seguidos.

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Ao lado um um pequeno vilarejo chamado Romanjia, a Flávia viu em uma fazenda algumas pessoas acenando e nos chamando. Paramos e então conhecemos o Boris e seus divertidos amigos. Churrasco, bebidas e uma noite tranquila na aconchegante casinha na fazenda oferecida pelo Boris.

Sem falar uma palavra na língua um do outro, nós nos divertimos a tarde toda com este engraçado personagem de nossa viagem. Ele fez churrasco para nós, rimos muito de suas histórias e mímicas e ainda explicou como produz sua própria cachaça, Rakjia, em casa. No final da tarde ele deixou seu refúgio na fazenda pronto para passarmos a noite. Foi uma experiência muito divertida com Boris e seus amigos.

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Ainda no vilarejo de Romanija, Republika Srpska (Bósnia e Herzegovina), conhecemos uma  igreja ortodoxa bonita com uma história triste. Durante a guerra civil nesta região este vilarejo foi bombardeado e todas as paredes da igreja estão cobertas de nomes de pessoas, que morreram durante a guerra civil. Um país de belas paisagens e com histórias muito marcantes.

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Durante a noite fez bastante frio, mas a cabana do Boris tinha um fogão a lenha dentro que deixou tudo muito aconchegante. Acordamos cedo e partimos. Desta vez em um relevo um pouco menos montanhoso e margeando alguns belos rios.

Ás margens do rio Drina completamos 11000 km pedalados e paramos em um restaurante a beira da estrada para tomarmos uma cervejinha e comemorarmos.

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O lugar era bonito e aconchegante e perguntamos se poderíamos acampar em uma área gramada que havia anexa ao local. Os donos do lugar disseram que não haveria problema algum e então ficamos por lá. A noite começou bem tranquila, ouvíamos ao fundo algumas vozes de pessoas conversando e bebendo no restaurante, pegamos no sono. Cerca de 2 horas da manhã acordamos com o barulho de pessoas brigando no restaurante, a cachaça Bósnia fazendo efeito. Era homens e mulheres gritando, a maior baixaria. Uma das mulheres passou chorando próximo a nossa barraca, alguns carros sairam cantando pneu e logo ficou o maior silêncio, pronto, voltamos a dormir.

Seguindo pelas margens do rio Drina, chegamos a Ponte Mehmed Paxá Sokolović em Višegrad. Ela foi construída em 1577 pelo arquiteto imperial Império otomano Sinan por ordem do grão vizir Mehmed Paxá Sokolović. Representa o cume da arquitetura e engenharia otomana. Na cidade de Višegrad encontramos um ciclo viajante alemão muito simpático, que depois viríamos a reencontrar (@fremo.en.route ).

Este foi nosso último dia em território Bósnio, pois preferimos continuar, atravessar a fronteira e acampar na cidade Sérvia de Priboj. Gostamos muito de pedalar neste país. As paisagens são belas, as pessoas que conhecemos foram muito amigáveis e algumas deixaram saudades, a comida saborosa e os preços amigáveis.

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