Tajiquistão: Trecho 1 – Desbravando o “teto do mundo”. Como foi a aventura de bicicleta na Pamir Highway [percurso até a cidade de Khorog]. (For other languages please use the website or browser translator).

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Entramos no país 25 da nossa viagem e lá completamos 2 anos de estrada. Fomos rumo a Pamir, a rota de aventura mais famosa da região e que pouco antes de entrarmos na Ásia Central estava fora de nossos planos. Depois de ver muitas imagens e opiniões de outros viajantes que passaram por lá, chegamos a conclusão que seria um desperdício estar tão pertinho e não enfrentarmos a aventura de pedalar o “Teto do Mundo”, como é chamada a Pamir Highway por algumas pessoas, devido as grandes altitudes por onde passa a estrada. 

Da fronteira com o Uzbequistão seguimos pedalando e fomos direto até a capital do Tajiquistão, Dushanbe. Foram mais de 80 km pedalados neste dia, mas muitos trechos foram bem planos. Chegamos no final da tarde na cidade, cansados e tivemos que enfrentar o trânsito típico das cidades maiores até chegarmos em um hostel. Queríamos muito reencontrar um casal de amigos que estaria por lá na mesma época. Decidimos então ficar no mesmo hostel que eles, Green House Hostel. O lugar era muito legal e cheios de viajantes de bicicleta, moto e motor home. Foi muito bom para trocar dicas sobre o trajeto que teríamos pela frente.

Amizade de viagem, sincera e cheia de coisas em comum. É assim que nos sentimos na companhia da Maryse e Philippe, um casal de cicloviajantes franceses que conhecemos no Marrocos, depois nos reencontramos na França, onde ficamos hospedados alguns dias na casa deles e agora, por uma felicidade do destino estamos juntos novamente em Dushanbe, cerca de 1 ano depois da última vez que nos vimos. Eles são uma inspiração para nós, já com mais de 60 anos, eles seguem fortes, aventureiros, bem humorados e com uma saúde de ferro. Novamente tivemos momentos muito felizes na companhia destes dois queridos. Além dos dias juntos em Dushanbe, ainda combinamos de viajar juntos por mais alguns dias rumo a Pamir. Eles trouxeram presentes pra nós (guloseimas “Haribo” e algums roupas da Decathlon) e contaram suas histórias da última viagem que fizeram pela Patagônia e Tierra del Fuego, de bicicleta é claro ☺.

 

A capital do país foi uma parada estratégica para nós antes de enfrentarmos a Pamir Highway. Aproveitamos para descansar, matar saudades dos amigos ciclo viajantes franceses, fazer um check-up na “Minhoca”, comermos bem e fazer um passeio por esta cidade histórica e turística. Estava um calor de lascar no verão, mas no começo da manhã e início da noite era possível caminharmos sem torrar. A cidade é bonita, bem cuidada e florida. Gostamos de conhecer.
O nome da cidade significa “segunda-feira” no idioma tajique, em referência ao fato de a cidade ter tido um mercado popular que funcionava durante esse dia da semana. Ainda que existam restos arqueológicos que remontem ao século V a.C., Duchambé foi um pequeno povoado até cerca dos anos 80. Em 1920, o último emir de Bucara refugiou-se em Duchambé após ser derrotado na Revolução Bolchevique. O emir fugiu para o Afeganistão depois que o Exército Vermelho conquistou a zona no ano seguinte. A cidade foi tomada por Enver Paxá em 1922 e foi o quartel general de Ibraim Beque, um líder tajique que lutou contra os bolcheviques. Com a vitória do Exército Vermelho e a chegada da estrada de ferro em 1929, a cidade converteu-se na capital da República Socialista Soviética do Tajiquistão.
Em 1990, houve vários distúrbios, após a descoberta de planos para realojar dezenas de milhares de refugiados armênios, fato que provocou o sentimento nacionalista local. A cidade foi muito prejudicada com a Guerra Civil do Tajiquistão, que ocorreu pouco depois do desligamento, entre 1992 e 1997.

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Mais um “encontro” de cicloviajantes brasileiros… hehehe, em uma porta de geladeira na capital do Tajiquistão. @pedaispelomundo + @isra.coifman + @2fortrips = ❤🌏.

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Pamir Highway. Qual rota escolhemos? Saindo de Dushanbe existem algumas opções diferentes de percurso para chegar em Osh, no Quirgistão. Cada uma com suas particularidades, principalmente no que diz respeito a paisagens, altimetrias e superfície das estradas. Após pesquisarmos e ouvirmos relatos de cicloviajantes que fizeram todas as combinações possíveis, optamos por sair de Dushanbe seguindo pela rota sul, que margeia o rio Panj e a fronteira com o Afeganistão até a cidade de Khorog, onde então seguimos pela rota Norte (M41) até Alichur e depois continuamos pela rota comum a todos sentido Quirguistão.
Escolhemos esta rota pois é a que apresenta estradas melhores. Os passos mais altos continuam os mesmo e as paisagens são bonitas em todas as opções. A combinação inversa a que escolhemos é mais desafiadora do ponto de vista técnico, estradas piores e para nós seria muito cansativa em uma tandem carregada, assim iriamos sofrer o tempo todo e praticamente não aproveitar a paisagens, chegando destruídos nos lugares para acampar, fora as maiores chances de brigas devido ao estresse e riscos de quebrar coisas na bicicleta por causa da trepidação excessiva com o terreno muito acidentado. Na verdade não existe trecho fácil por aqui, mas optamos pelo menos sofrido.

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Aqui neste post vamos contar como foi parte do nosso trecho pelo Tajiquistão, da fronteira com o Uzbequistão até a cidade de Khorog (670 km), considerada “a capital da Pamir”. O caminho todo no Tajiquistão foi de cerca de 1120 km e um ganho enorme de altimetria, saindo de Dushanbe a cerca de 1000 metros de altitude e chegando ao maior passo de montanha da Pamir, com 4655 metros. Enfrentamos calor, frio, estradas ruins, dias difíceis com muita diarréia, mas as paisagens, pessoas, aprendizados e experiências boas que tivemos fizeram valer muito a pena. No Trecho 2 contamos como foram as aventuras de Khorog até a fronteira com o Quirguistão.

Saímos de Dushanbe acompanhados dos amigos cicloviajantes franceses Maryse e Philippe. O ritmo deles é mais rápido que o nosso, mas eles reduziram a velocidade por alguns dias para viajarmos juntos e foi incrível. Apesar de ser a maior cidade Tajique, sair pedalando de lá foi tranquilo e sem problemas.

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Outra coisa que os franceses entraram no nosso ritmo por alguns dias foram as paradas mais longas para almoço e ciesta, fugindo do calor extremo entre as 11 da manhã e 17h. Eles não costumam fazer paradas longas, mas para acompanhar os “tartaruguinhas” aqui, eles m a rotina por alguns dias. Neste dia, depois de Dushanbe (Bakhdat), encontramos uma cobertura bem boa para uma paradinha do meio do dia.

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A Ásia Central ainda é uma região bem rural. Em nossas andanças por aqui, é rotineiro ver rebanhos em meio a belas paisagens de montanhas.

Psssss…! 2 minutos antes de chegarmos no lugar que avistamos para acampar, entrou um parafuso no pneu traseiro, para esse a proteção green guard não deu conta. Acho que estava na hora de investir em algo do tipo pneus a prova de balas, heheheh…

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No final da tarde, depois de remendar um pneu traseiro, chegamos proximos ao vilarejo de Norak e encontramos um lugar muito bacana para acampar as margens de um rio, com direito a peixinho frito e cervejinhas que os amigos franceses compraram no vilarejo ao lado e belas paisagens de montanha ao redor.

Na companhia dos amigos franceses Maryse e Philippe, continuamos pela rota sul sentido Kalai Kum. O calor intenso do verão na Ásia Central nos forçava a fazer paradas mais longas para almoço e descanso. Neste dia tivemos uma longa subida até atravessar a região onde fica uma enorme barragem, Nurek, e depois da descida, paramos para descansar, almoçar e nos distraímos com um rebanho de ovelhas e cabras que passou por ali.

Próximo a cidade de Dangara, a aproximadamente 100 quilômetros ao sul de Dushanbe, os cicloviajantes norte americanos Lauren e Jay, o holandês Rene e o suiço Markus foram assassinados brutalmente por homens suspeitos de conexão com grupos islâmicos radicais. Eram pessoas inofensivas, que como nós, viajavam de bicicleta e realizavam seus sonhos. Foram alguns minutos tristes em frente a este monumento. Amarramos uma fitinha, assim como muitos cicloviajantes que passam por ali. A Flavinha se emocionou e chorou um pouco, nunca conhecemos estas pessoas mas eram viajantes com muitas coisas em comum conosco.

Depois de Dangara fomos passando por várias pequenas cidades. Já era final de tarde e não havíamos ainda encontrado um lugar interessante para acampar. O Philippe viu uma estrada de terra paralela e entrou, poucos minutos depois ele volta dizendo que encontrou um lugar interessante, mas não tínhamos ideia das surpresas que viriam. Chegando na área gramada entre pequenas propriedades rurais, paramos as bicicletas e logo se aproximou um senhor, Sr Sacha, ele disse que poderíamos acampar ali sem problemas e foi muito hospitaleiro. Estava o maior calor, ele virou e perguntou “Pivo?” (Cerveja em Russo), fiz aquele gesto de positivo e dei um sorriso. Passados poucos minutos ele volta com 2 garrafas de 2 litros de cervej artesanal que ele mesmo produzia. Além disso ofereceu um banho de mangueira para nós e ainda trouxe várias frutas e chá. Conversávamos com ele da maneira que conseguíamos mas dava pra perceber que ele estava contente conosco por ali, o que deixou o ambiente muito aconchegante. A noite foi tranquila e silenciosa, talvez com alguns roncos depois das cervejinhas, hehehe… Rahmat Sacha!

No dia seguinte fomos sentido Kulob. Esta foi uma parada estratégica nesta região. A cidade é pequena e não tem muitos pontos interessantes para conhecer. Mas ficamos juntos com nossos amigos em um quarto de hotel, papeamos bastante e fizemos nossa despedida. Eles vão mais rápidos que nós e como queríamos fazer a Pamir com calma e quilometragem pequena por dia, nos despedimos deles, já com saudades.

Desde que montaram uma roda traseira nova em Tbilisi, capital da Georgia, começamos a ter problemas com quebra de raios. A roda traseira é a parte que mais sofre em uma tandem pesada. As estradas da Pamir, com muitos trechos de pedras e soltas e subidas judiaram bastante da roda traseira e quase todos os dias tinha que trocar um raio quebrado. O que fiz para alinhar a roda foi colocar dois pedaços do raio quebrado nos “chainstays” e assim ver onde estavam os desalinhamentos.

Antes do vilarejo de Shorobod, rota Sul encontramos aquele cantinho escondido para acampar.

Continuamos pela estrada E800. A rota sul de Dushanbe a Kalai Kum apresenta trechos de asfalto lisinho onde a “Minhoca” rodou tranquila e trechos de estrada de terra e areia com pedras soltas onde chacoalhamos bastante e empurramos nas partes mais difíceis.

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A rota sul da Pamir vindo de Dushanbe passa por este passo de montanha que é pequenino perto dos gigantes que estão por vir. Ficamos felizes em chegar aos 1950m (Shurobod pass) e depois termos uma deliciosa descida até as margens do rio Panj, que faz fronteira entre o Tajiquistão e o Afeganistão.

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Minas terrestres no Tajiquistão. Mais uma vez nos deparamos com este problema criado pelo humano em um país tão bonito. Este é um legado da guerra civil que assolou o país entre 1992 e 1997 e também por minas terrestres colocadas pelo Uzbequistão na região fronteiriça entre os dois paises. Muitos hectares suspeitos já foram limpos, porém ainda há muitas áreas demarcadas.

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Viva o Panj!
Chegar ao Rio Panj foi muito bacana, pela primeira vez estávamos vendo o Afeganistão, logo ali do outro lado do rio com suas belas paisagens. Ao mesmo tempo começamos a pedalar por enormes montanhas no vale por onde passa o rio. O rio é super turbulento e com correnteza forte, o que o deixa com a água turva, é bem gelado também pois recebe agua de degelo de muitas montanhas ao redor, mas mesmo assim aproveitamos para comemorar nosso encontro com ele, nadando e bebendo umas cervejinhas. Acampamos neste dia a beira dele. O Panj foi nosso companheiro de viagem até a cidade de Khorog.

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O rio Panj (persa: رودخانه پنج) (/ Tajpɑːndʒ /; Tajik: Панҷ, پنج), também conhecido como rio Pyandzh ou rio Pyanj (derivado do seu nome russo “Пяндж”), é um afluente do Amu Darya. O rio tem 1.125 km de comprimento e forma uma parte considerável da fronteira do Afeganistão com o Tajiquistão.
O rio é formado pela confluência do rio Pamir e do rio Wakhan, perto da aldeia de Qalʿa-ye Panja (Qal`eh-ye Panjeh). De lá, flui para o oeste, formando a fronteira do Afeganistão e do Tadjiquistão. Depois de passar pela cidade de Khorog, capital da Região Autônoma do Tajiquistão, Gorno-Badakhshan, recebe água de um de seus principais afluentes, o rio Bartang. Ele então se volta para o sudoeste, antes de se juntar ao rio Vakhsh e formar o maior rio da Ásia Central, o Amudarya. O Panj desempenhou um papel importante durante os tempos soviéticos e foi um rio estratégico durante as operações militares soviéticas no Afeganistão nos anos 80.

Foi muito bom pedalar margeando o rio com uma paisagem de enormes e deslumbrantes montanhas ao redor, nos sentíamos minúsculos perante a natureza. Próximos ao vilarejo de Zigar encontramos um restaurante. Perguntamos se poderíamos acampar por alí e nos ofereceram um cantinho bom e protegido do sol embaixo de enormes árvores.

“O Afeganistão era logo alí”
O país é vizinho do Tajiquistão e ficou por muitos quilômetros ao nosso lado, na outra margem do rio Panj. Um destino ainda não muito turístico e com uma história turbulenta, ao mesmo tempo que gera receio e medo, nos gerava também muita curiosidade. Em vários trechos o rio ficava mais estreito e nós nos encontrávamos muito próximos a ele. Nestas horas aproveitávamos para observar a vida nos vilarejos e caminhos do outro lado do rio.

A Pamir apresenta muitos trechos de sobe e desce, por vezes íngrimes, assim como terrenos por vezes difíceis de pedalar. No final do dia, depois de dar aquela olhada geral na bicicleta. É comum encontrar um freio já no final da vida que precisa ser substituído, algum raio quebrado, um parafusinho querendo saltar fora. Neste dia no final de tarde, depois de uma subida íngrime, próximos ao vilarejo de Yoged na rota sul da Pamir, conseguimos chegar a uma fonte de água e reabastecemos todo o nosso estoque. Procuramos ali por perto e não encontramos nenhum lugar interessante para acampar. Pedi que a Flavinha ficasse ali cuidando da bike e eu desci para um lugar a cerca de uns 300 m atrás, que parecia uma pequena vila abandonada, e acabei encontrando um lugar bem aconchegante perto de uma árvore. Deu aquela dor no coração descer de volta e saber que teríamos que vencer a mesma subida na próxima manhã, mas podemos dizer que a paisagem e tranquilidade do lugar fizeram valer a pena. Consertei os raios quebrados, tivemos uma noite tranquila e acordamos com uma bela paisagem ao redor.

Depois de belas paisagens, estradas esburacadas, com pedras soltas e um tombo, chegamos em Kalai Khumb ficamos e ficamos em uma hospedagem bem simples onde 3 outros cicloviajantes brasileiros já haviam ficado, o Isra (@isra.coifman) e o Felippe e Mariana (@pedaispelomundo ). O lugar estava por sorte vazio quando chegamos, mas apesar da simplicidade apresentava uma vista bonita de um rio que vem das montanhas e desagua no rio Panj. Aproveitamos os dois dias por lá para descansar e reabastecer nossos estoques de guloseimas.

De Kalai Kum continuamos beirando o Rio Panj sentido Khorog. Em um trecho de estrada de terra ouvimos um barulhão. Bum!!! Com barulho de balão estourando, fomos surpreendidos pelo nosso pneu traseiro antes do vilarejo de Togmay. O patch que havíamos feito na Georgia ha muito tempo atrás não aguentou o “pula-pula” da estrada, que estrava bem pedregosa nesta parte, abriu e a camara de ar explodiu causando um buraco ainda maior. Como carregamos um pneu reserva (que estava gasto mas estava bom), fiz a substituição ali na hora mesmo e continuamos.

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“Pamirréias”. Assim apelidamos carinhosamente os intermitentes desconfortos gastro-intestinais que tivemos no Tajiquistão. A diarreia dos viajantes é algo habitual em muitos lugares do mundo, principalmente nos países mais pobres e com condições sanitárias precárias, como é o caso dos países da Asia Central. Por aqui, mesmo clorando a água, as “pamirréias” aconteciam, muitas vezes pelas comidas também. Neste dia, logo após o vilarejo de Togmay a Flavinha começou a se sentir muito mal, vomitou muito e nem saímos mais dali. Caminhei cerca de 1 km e pouco e encontrei uma fonte de água e então voltei e procurei um lugar por ali mesmo para acamparmos, água não iria faltar mais. Carregamos uma pequena farmacinha conosco e depois de se hidratar melhor e tomar um anti-emetico, ela melhorou um pouquinho e conseguimos montar acampamento.

No outro dia a Flavinha acordou melhor, conseguiu se hidratar e comer, desmontamos acampamento e seguimos viagem. Já havíamos pedalado bastante neste dia e buscamos um lugar para acampar na rodovia M41, antes da cidade de Khorog. Ao longe avistamos um platô esverdeado perfeito para acamparmos. Chegando embaixo dele, vimos que seria trabalhoso chegar até lá, mas mesmo assim fomos levando tudo devagar lá pra cima e valeu a pena. Lugar tranquilo e com uma vista linda das montanhas Tajiques e Afegãs com o rio Panj no meio.

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O verão na Pamir Highway é uma ótima estação para curtir as paisagens. O clima fica mais seco, com céu aberto e raras núvens. O Rio Panj e o Afeganistão ainda ao nosso lado enquanto seguíamos sentido Khorog. Por vezes a estrada ficava estreita, mas o baixo fluxo de veículos evitava maiores problemas.

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O outro pneu havia rasgado e estourado ha alguns dias atrás  e então estávamos rodando com nosso pneu reserva, que já apresentava algumas avarias. Neste dia eu percebi que o pneu reserva começou a abrir próximo ao aro. A parte que reveste a armação de arames do pneu estava frágil e então acabei fazendo uma gambiarra com pedaços de câmara de ar e costura. O resultado final ficou feio, mas funcionou e o pneu voltou a encaixar perfeitamente no aro e pudemos seguir viagem.

Nem sempre é tudo lindo. Buscamos lugares bonitos para acampar, mas nem sempre dá certo. Neste dia havíamos encontrado um lugar bem bonito e tranquilo para acamparmos. Perguntamos em um café ao lado e disseram que poderíamos acampar alí sem problemas. Quando terminamos de montar acampamento apareceu um adolescente falando que deveríamos pagar para ele para acamparmos ali. Eu (Thiago) já estava cansado do dia de pedal e também desses adolescentes “malas” que tem por alí. Desmontamos acampamento na mesma hora, ofereci “educadamente” meu dedo médio a ele (neste dia eu estava sem paciência) e voltamos a pedalar já com a noite começando. Por sorte, cerca de 2 km depois encontramos uma área tranquila, não tão bonita, ao lado da pista e montamos nosso acampamento já na penumbra. Dormimos tranquilos e a única visitante pela manhã foi uma aranha com uns ferrões gigantes.

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Viajar a dois tem vantagens e uma delas é a companhia para jogar baralho. Ficamos craques em jogar canastra. Fizemos a Pamir bem tranquilamente e devagar, aproveitando o máximo cada cantinho deste belo pedaço do mundo. Fazíamos longas paradas para almoço, cozinhando, preparando chá, jogando baralho e tirando uma soneca.

Cada vez que avançavamos pela estrada Pamir rumo a Khorog, as montanhas ficavam mais imponentes ao nosso redor e ao mesmo tempo ganhávamos altitude. Próximos ao vilarejo de Rushon, com a ajuda de um aplicativo chamado iOverlander, vimos que havia um lugar para acampar em meio a enormes pedras. Para nossa surpresa, chegamos lá e encontramos um platô com um riozinho ao lado. Perfeito! Acampamos tranquilos rodeados de belas montanhas ao nosso redor e invisíveis para quem passava pela estrada.

Uma coisa que não esperávamos e que não gostamos na Pamir foi o intenso fluxo de caminhões gigantescos que vão sentido China e caminhonetes 4×4 cheias de turistas em alta velocidade. Os caminhões não estão em todas as partes, mas principalmente em alguns trechos, como entre Qalai Khum e Khorog. Em nenhum momento nos sentimos ameaçados por eles, mesmo porque eles iam bem devagar, igual a nós, e os motoristas sempre foram simpáticos. Mas mesmo assim as vezes ficávamos bem espremidos para eles passarem. Já as 4×4 eram muito imprudentes e passavam em alta velocidade sem se importarem com quem mais estivesse na estrada.

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Após mais um dia repleto de subidas e belas paisagens, começamos a procurar um lugar para acamparmos. Na Ásia Central as pessoas são bem curiosas e então sempre que possível buscamos lugares bem escondidos para isso. Neste dia indo sentido Khorog, já era final de tarde quando encontramos uma florestinha próximo a estrada. Nos embrenhamos em meio as árvores e conseguimos ficar bem escondidos. A foto tirada em cima de um morro atrás da florestinha dá uma noção melhor do nosso “esconderijo”. 

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Giardia lamblia (microscopia)

O dia seguinte começou bem, mas acabou mal. Pedalamos tranquilos por vilarejos pequenos, as vezes ouvindo o “Helloooo! What is your name!?”, típico da criançada da Pamir até que comecei a me sentir mal. A 30km de Khorog, comecei a sentir fraqueza, dores articulares, nauseas, cólicas e ter episódios de diarréias aquosas cerca de 3 vezes por hora, estava difícil continuar pedalando. A Flavinha percebeu rapidamente que eu não estava bem, mesmo nas subidas eu não conseguia nem empurrar a bicicleta direito, comecei a desidratar. Foi tudo muito rápido e súbito, diferente de todas as outras diarréias que eu já havia tido durante a viagem. Em uma descida ao longe avistei uma focinha e um gramado ao lado, no embalo chegamos de bicicleta alí. Eu desci e sentei na pista, estava com tontura e a Flavinha foi pedir para acamparmos, era um pequenino povoado com poucas casas. A resposta foi positiva e então consegui me levantar e ir a focinha, a primeira vez de muitas naquele final de tarde e noite. Foi então que percebi que estava com Giardiase, que é endêmica nesta região, mas provavelmente adquirida no Uzbequistão, devido ao período de incubação.
A Giardiase é causada pela infecção intestinal (delgado) pela Giardia lamblia, um parasita e a contaminação é principalmente por água contaminada com os cistos (“ovos”). Os sintomas começam normalmente de 1 a 3 semanas após o contágio. O tratamento de escolha é com Secnidazol ou Metronidazol por 7 a 10 dias. Em um post futuro vamos tratar especificamente sobre o tema “Diarreia dos Viajantes”.

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Depois de montarmos acampamento eu me deitei ao chão com fraqueza, desitratação e febre. A Flavinha mediu minha temperatura e eu tentei beber mais água e tomei um paracetamol. O pequeno povoado apresentava algumas pessoas idosas morando nas casas e eles perceberam que havia algo de errado. Foi então que todos os vovôs e vovós tajiques ao nosso redor sentiram que eu estava doente e começaram a fazer de tudo para ajudar. O senhor dono da propriedade onde acampamos trouxe um colchonete, travesseiro, chá, remédios e pão, uma outra senhora trouxe doces e frutas e outro senhor veio com um baldinho com legumes, estava claro que se formou um grupo de ajuda e acolhimento por todos os vovôs e vovós. A febre passou cerca de 40 minutos após a medicação e eu pude me levantar, agradecê-los, tirar fotos de alguns deles e comer um pouco. Ali não havia como comprar antibióticos para tratar, mas com os sintomáticos consegui segurar a febre e as nauseas e continuar até Khorog na manhã seguinte, onde comecei o tratamento.

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Acordei um pouco melhor, consegui me hidratar, a Flavinha acordou animada para pedalar forte a fazer a gente chegar em Khorog. O dia foi com altimetria mais tranquila, belas paisagens, mas eu ainda me sentia muito fraco e continuava com episódios diarreicos durante o caminho, as paradas eram constantes, porém um pouco menos que no dia anterior. Conseguimos chegar na “Capital da Pamir”, Khorog, onde eu conseguiria tratar a doença, descansar e ter novas surpresas. Mas para a leitura não ficar muito longa e cansativa, contaremos a continuação da aventura no próximo Post…

Trecho 2 ->

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