Quirguistão – Pedalando entre Yurts e belos cenários, mudança da paisagem em relação aos países vizinhos e o final da Pamir Highway.

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O Quirguistão foi surpreendente pra nós em vários sentidos. A natureza mudou muito após cruzarmos a fronteira com o Tajiquistão, a Pamir Highway estava chegando ao fim e decidimos alterar nosso roteiro de viagem após pensamentos que tivemos sobre nós mesmos neste momento da viagem, coisas que o “mantra do pedal” nos ajuda a acessar.

Em Fevereiro de 2019, o governo do Quirguistão fez uma emenda na sua legislação de fronteiras e foram adicionados mais 7 países que não precisam de visto por 60 dias para transitarem por lá e isto inclui o Brasil. Como não sabíamos disto na época, acabamos pagando 52 USD por pessoa pelo E-Visa e só fomos informados de que não havia necessidade quando cruzamos a fronteira entre o Tajiquistão e o Quirguistão vindo pela Pamir Highway. Sentimos uma dor no coração e no bolso percebendo 104 USD desperdiçados, uma vez que este dinheiro faz uma grande diferença no nosso orçamento apertado.

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Viajamos pouco de bicicleta pelo Quirguistão, pedalamos cerca de 230 km apenas pelo país, da fronteira com o Tajiquistão até a cidade de Osh e o restante do percurso, que foi o maior trecho, entre as cidades de Osh e a capital, Bishkek, fizemos de avião, um vôo que já havíamos comprado um bom tempo antes, quando decidimos mudar nossos planos de viagem pela Ásia Central.

Resumindo nossa mudança de planos após o “mantra do pedalar”:

Antes de chegarmos no Irã, a idéia seria terminar a Pamir Highway antes da cidade de Osh, onde pegaríamos uma estrada sentido leste que nos levaria ao Irkeshtam-pass, a fronteira entre o Quirguistão e a China. Bom, depois de um tempo no Irã, decidimos mudar o roteiro e pular a China por vários motivos. Com isso escolhemos então que seguiríamos viagem até Osh, terminando a Pamir Highway lá e descansando algumas noites, para depois continuarmos pedalando até a capital do país, Bishkek, onde pegaríamos um vôo até Kathmandu, Nepal, e de lá seguiríamos pedalando através da India e Myanmar sentido Sudeste Asiático, mas novamente mudamos nossos planos e as vivências que tivemos na Asia Central e a Pamir Highway tiveram influência sobre esta mudança. O pedalar muitas horas te leva muitas vezes para uma viagem paralela, para dentro de si mesmo, é o que chamamos de “o mantra do pedal”, um “transe” cadenciado pelos  movimentos repetitivos do pedalar e o barulhinho das engranagens da bicicleta em movimento.

O plano final executado foi encurtar nossa viagem pelo Quirguistão pegando um vôo de Osh a Bishkek, onde ficamos alguns dias e de lá pegamos outro vôo direto para o Sudeste Asiático, mais especificamente a cidade de Hanoi, no Vietnam.

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Sobre esta viagem interior e todos os pensamentos que nos levaram a estas mudanças, dedicamos um Post Especial que escreveremos em seguida, “O mantra do pedal e as mudanças de planos”.

 

Mas voltando ao assunto Quirguistão, onde passamos um bom tempo, mas não pedalamos tanto. É incrível como algumas fronteiras geográficas parecem fazer mais sentido nestes lados do mundo. Após cruzarmos o passo de montanha e entrarmos no Quirguistão, a vegetação e idioma mudaram muito. Tudo ficou mais verde, as montanhas com mais terra do que pedras. As pessoas ficaram com mais traços orientais e o idioma mudou completamente. Os Yurts (tipo casinhas das fazendas deles) ficaram muito mais presentes e além das ovelhas e cabras, os cavalos e Iaques são mais numerosos no Quirguistão.

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O Yurt é uma tenda ou cabana circular usada tradicionalmente pelos pastores nômadesmongóis e de outros povos da Ásia Central, como os quirguizes e os cazaques. Possui uma estrutura interna de madeira, com parede raramente ultrapassando a altura de um homem e teto ligeiramente abobadado, possuindo apenas um cômodo. É coberta por feltro ou lã, geralmente brancos. Toda a estrutura é de fácil montagem, fornecendo boa proteção contra o calor e o frio, e é carregada em pequenas carruagens nas migrações em busca por melhores pastagenspara seus rebanhos.
A UNESCO classificou em 2014 o fabrico tradicional dos yurts como Património Cultural Imaterial da Humanidade.

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Viajantes.
A Pamir Highway é uma das rotas de aventura mais famosas da Ásia Central, e portanto ponto de encontro de viajantes de todos os estilos. Na cidade de Sary Tash encontramos um simpático casal de holandeses já há um longo tempo viajando (@tenmillionturns ), um casal de italianos que viajam nas férias e outros diversos viajantes de carro, moto e motor home. A cidade é pequena e sem muitos atrativos, mas a paisagem em volta é muito bonita e tem pequenos mercados e opções de hospedagem que ajudam a descansar após a entrada no país. Ficamos em um tipo de restaurante e hostel por 2 noites.

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Depois de uma longa descida entrando no Quirguistão até a cidade de Sary Tash, a Pamir mostrou que ainda não havia acabado e que nada é muito fácil por lá. Depois de Sary Tash passamos por outros 2 passos de montanha com mais de 3500m de altitude. A Pamir nos deixou muito bem treinados em empurrar a bicicleta hehehehe…

Belas paisagens montanhosas no trecho entre Sary Tash e Osh, o finalzinho da Pamir Highway para nós.

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Depois de um longo dia de sobes e desces após a cidade de Sary Tash, começamos a procurar um lugar para acampar, achamos um gramado perfeito próximo a pista, mas como preferímos ficar escondidos quando acampamos selvagem, nos embrenhamos por uma pequena mata e encontramos um cantinho fora do ângulo de visão da estrada. Depois de cozinharmos dentro da barraca e nos limparmos com a água de um pequeno rio ali perto, dormimos rapidamente, sem a visita de curiosos.

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Os trechos finais da Pamir, para quem vai no sentido Osh, apresenta mais descidas do que subidas, o que depois de tantas subidas desde Dushanbe é uma grande alegria.

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O último camping selvagem na Pamir.
No último dia antes de chegarmos a cidade de Osh, o final da Pamir para nós, já estávamos muito cansados. Fizemos metade da subida de 16 km, e deixamos os outros 8 km para a manhã seguinte. Não haviam opções interessantes para acampar por alí, mas mesmo assim observando com cuidado acabamos encontrando um morrinho com uma parte plana em cima. Tiramos as bagagens da bicicleta e subimos até lá levando cada coisa de uma vez. Mais afastados da estrada, ficamos mais escondidos e o único incômodo foi o barulho dos caminhões que passavam ao longe com os motores fazendo um barulhão para vencerem a subida inclinada.

No dia seguinte desmontamos acampamento e saímos ansiosos para nosso último dia da Pamir, que nos preparou encontros incríveis com outros viajantes, e um destes foi com a cicloviajante Suiça Selina (@selinakappeler ) neste dia, a qual conhecemos ha 2 anos atrás na Patagônia Argentina. Qual a chance de reencontrá-la tantos anos depois do outro lado do mundo!!?? Pois é… aconteceu 😊. Estavamos parados próximos a pista, tomando café ao lado de um motor home abandonado, quando vimos uma cicloviajante subindo ao longe. Ela então passou por nós e resolveu parar por ali para conversar. Foi a maior surpresa e alegria quando nos aproximamos e nos reconhecemos.
Ela é divertida, alto astral e bem humorada. Adoramos reencontrá-la. Em Osh passamos mais alguns dias juntos no mesmo camping.

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O último passo de montanha da Pamir.
Esta placa marcou o último passo de montanha da Pamir, há cerca de 60 km da cidade de Osh. Depois foram mais de 50 km de descida. Yupiii! Pegamos vento contra o dia todo, mas mesmo assim estávamos somente alegria este dia por termos conseguido terminar a Pamir. Ir de Dushanbe até Osh foi um grande desafio para nós, por muitos motivos: características do terreno, altitude, ventos, clima e muitas diarreias pelos caminhos, heheheh. Mas foi um desafio com muitos momentos bons também, lindas paisagens, encontros divertidos, imersão cultural e aprendizados. Nosso período na Ásia Central foi muito intenso, mas já estamos com ganas de uma mudança, “novos ares” 😊.

O Oásis pós Pamir.
A cidade de Osh marcou o final da Pamir Highway para nós. Neste dia pedalamos cerca de 80 km e chegamos no final da tarde, em um dia de sol, descidas, mas muito vento contra. Chegamos cansados e ao mesmo tempo felizes e com uma sensação de vitória. Fizemos a Pamir no nosso ritmo, devagar e por vias menos técnicas, para aproveitarmos ao máximo, mesmo assim ela é desafiadora e exigiu bastante de nós, principalmente pois pela primeira vez ficamos doentes várias vezes seguidas.
Chegando em Osh fomos direto para o “paraíso dos cicloviajantes”, o Hostel Tes. O lugar esta cheio de viajantes de todos os tipos e tem uma atmosfera muito boa. Ficamos 9 noites lá (chegamos um pouco antes do previsto) e a opção mais barata que encontramos foi acampar. Eles cobram 6USD por pessoa com direito a um café da manhã colossal, algo maravilhoso depois da Pamir. Descansamos muito, fizemos novas amizades, reencontramos viajantes e comemos muito no café da manhã.

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Dente quebrado.
Desta vez foi a Flavinha que quebrou um dente mordendo alguma coisa. Foi no meio da Pamir e então esperamos chegar em Osh, onde havia mais opções de tratamento. No hostel indicaram uma clínica e fomos até lá. Com a ajuda do Google tradutor a Flá conversou com os dentistas e por sorte uma obturação resolveu o problema, sem a necessidade de tratamento de canal. O atendimento foi ótimo e o resultado muito bom. O valor ficou cerca de 45 USD com RX panorâmico, um pouco mais caro do que na Armênia (20USD), quando o Thiago quebrou um dente. Os dentistas tinham formação na Coréia do Sul e foram muito simpáticos. Pronto, agora podemos voltar a abrir tampa de garrafa no dente, hehehe, brincadeira…

O ser humano e suas incríveis habilidades de música e dança. Em Osh tivemos sorte e chegamos na época das festividades de independência do país. A música, dança e culinária dizem muito sobre a história e cultura de um povo, adoramos quando podemos experimentar estas sensações em outros países. As festividades estavam muito animadas, com orquestra tradicional, danças e comidas típicas, todos vestidos a carater, coloridos, tudo muito lindo.

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Devido as nossas mudanças nos planos e troca do vôo de Bishkek – Kathmandu por Bishkek – Vietnam, acabamos antecipando nossa saída da Ásia Central e compramos um vôo de Osh para Bishkek ao invés de pedalar até lá. A Pamir foi o auge da nossa viagem pela Ásia Central e já chegando próximos a Osh percebemos que as estradas com maior fluxo de carros e caminhões haviam voltado. Conversamos com alguns amigos, alguns destes que já haviam pedalado este trecho até Bishkek e concordamos que poderíamos ficar sem algumas das belezas por estes caminhos e voarmos direto para Bishkek. Chegou então a hora da “trabalheira” pré-viagem de avião levando bicicleta. Conseguimos uma caixa de bicicleta em um supermercado da cidade e passei uma tarde toda desmontando e fazendo as partes da bicicleta caberem todas juntas, como em um jogo de quebra-cabeças, dentro de uma única caixa.

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Pela primeira vez em nossa viagem, mais de 2 anos, resolvemos lavar nossos alforges. Os de roupa estavam beleza, mas os alforges dianteiros, onde transportamos as comidas, kit cozinha e outras tralhas, estavam uma sujeira maligna no fundo. Eles não ficaram com cara de novos, mas estão limpinhos novamente. Acho que tinha restos de comida velha (grãos de arroz, pedaço de chocolate, jujubas, açucar e temperos) que já estavam criando raízes hehehe…

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O vôo para Bishkek foi rápido e tranquilo, inclusive para despachar a bicicleta e nossas demais bagagens. A capital do Quirguistão foi nossa última cidade da Ásia Central, de lá saiu nosso vôo para o Vietnam.
Em quirguiz: Бишкéк, conhecida anteriormente como Pishpek e Frunze, é a capital e maior cidade do Quirguistão. Bishkek também é o centro administrativo da Província de Chuy. A cidade não faz parte da província (esta circunda aquela), mas sim tem, si própria, status de província do país e tem uma população de aproximadamente 950 mil pessoas.
Seu nome provavelmente deriva da palavra em quirguiz para uma manteigueira utilizada para fabricar leite de égua fermentado (kumis), bebida nacional do país, embora nem todas as fontes concordem com esta afirmação.
Bishkek possui grandes avenidas e prédios públicos de mármore, junto a inúmeros blocos de apartamentos no estilo soviético rodeando largos pátios nos seus interiores. Há também milhares de pequenas casas construídas com dinheiro privado, localizadas, em sua maioria, fora do centro da cidade. Apresenta uma disposição na qual a maioria das ruas são flanqueadas em ambos os lados por estreitos canais de irrigação, que alimentam diversas árvores que ensombrecem as ruas nos verões quentes.

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Mais um reencontro muito bom.
Durante nossa viagem, esta foi a quarta vez que encontramos os queridos amigos cicloviajantes franceses Maryse e Philippe (Conhecemos eles no Marrocos, depois ficamos na casa deles na França, encontramos novamente com eles no Tajiquistão e desta vez no Quirguistão). Foi mais um reencontro muito feliz. Pudemos trocar mais histórias de viagem e colocar na cabeça deles a sementinha de viajar de bicicleta pelo litoral nordestino brasileiro, hehehe.
Não sei se já contamos mas as vezes eles cuidam da gente como se fôssemos da família, ganhamos sorvete, doces, eles cozinham Ratatouille pra nós e claro, bebemos cervejinhas geladas e damos boas risadas juntos. Onde será que vamos nos reencontrar da próxima vez?? Já estamos com saudades.

Em Bishkek, por sugestão de amigos, ficamos em um hostel chamado Freelander. Haviam opções mais baratas na cidade, mas queríamos ficar lá por ser um lugar bem localizado e que foi elogiado por nossos amigos. Gostamos bastante do lugar, tudo muito bem pensado, novo, uma cozinha enorme e ótima para cozinhar.

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O colorido das feiras.
Tanto na cidade de Osh, como em Bishkek, o colorido havia voltadoas prateleiras e enchiam nossos olhos. A Pamir é predominantemente árida e as feiras, quando existiam, eram escassas em frutas e legumes. O Quirguistão tem muita água e áreas verdes, com suas feiras cheias destas delicias das quais estávamos sentindo falta.

A natureza no Quirguistão. Desbravamos pouco o Quirguistão comparativamente com o Tajiquistão. Sempre tentamos conhecer um parque nacional pelos países que passamos e tivemos a sorte de sermos convidados pelos amigos franceses Philippe e Maryse para irmos com eles conhecer o Parque Nacional de Ala Archa, a cerca de 30 km de Bishkek. Apesar do dia nublado, ficamos encantados com a beleza do lugar, ainda mais interessante com o colorido da vegetação que a chegada do outono estava trazendo.

O Ala Archa National Park é um parque nacional alpino nas montanhas Tian Shan do Quirguistão, estabelecido em 1976 e localizado a aproximadamente 40 km ao sul da capital Bishkek.
No Quirguistão, a archa, que dá nome ao parque, é um zimbro brilhante ou de muitas cores que o povo quirguiz tradicionalmente mantinha em especial estima, usando a fumaça da madeira queimada para afastar os maus espíritos. No entanto, a arca não deve ser plantada perto de casa, porque acredita-se que gradualmente consuma a energia dos seres humanos que vivem nas proximidades.
O parque cobre cerca de 200 quilômetros quadrados, e sua altitude varia de 1.500 metros na entrada a um máximo de 4.895 metros no Peak Semenova Tian-Shanski, o pico mais alto da faixa do Quirguistão Ala-tau no Tian Shan. Existem mais de 20 geleiras pequenas e grandes e cerca de 50 picos de montanhas dentro do parque.

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Bye bye Asia Central.
Nosso período na Asia Central foi um dos mais intensos na viagem. Aprendemos muita história, conhecemos paisagens incríveis, pessoas interessantes, mas também enfrentamos doenças, momentos desconfortáveis, pessoas “difíceis” e o choque cultural. Tudo isso nos fez olhar para dentro, rever conceitos, questionar comportamentos, treinar a paciência e a tolerância.
Do ponto de vista físico o relevo e o clima exigiram bastante também. Sentimos cansaço, calor, frio (novamente… chega!!!) e pela primeira vez a falta de ar causada pela altitude.
A passagem pela Asia Central foi inesquessível para nós, mas confesso que nos cansamos e buscamos agora um período de mais calmaria.
Muito obrigado Asia Central pela sua intensidade transformadora e que venha o Sudeste Asiático, com mais tranquilidade tropical, calor, praias, frutas suculentas, variedade gastronômica e menos subidas hehehehehe… Só a parte dos tufões e tsunamis que não fazemos questão 😃.

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